10 maio 2006

Silvio Pereira poupa Lula e diz que não sabe se disse a verdade em entrevista

O ex-secretário geral do PT Silvio Pereira afirmou à CPI dos Bingos que não sabe se o que disse em entrevista ao jornal "O Globo" é verdade. Na entrevista, publicada no último domingo, ele apresentou novas informações sobre o escândalo do mensalão. Em depoimento de mais de seis horas à comissão, o ex-petista repetiu por várias vezes que não tinha como confirmar as informações dadas ao jornal. O presidente da CPI, senador Efraim Morais (PFL-PB), chegou a reler toda a entrevista, diante das esquivas do ex-secretário. Mesmo assim, o ex-dirigente petista afirmou que não podia confirmar nada. "Posso ter dito coisas que são criação da minha cabeça. No conteúdo principal da matéria pode ser que eu tenha dito tudo o que está escrito, se ocorreu alguma distorção foi na minha cabeça", disse Silvio. Ele também afirmou que "não foi a primeira vez" que teve momentos de "fantasias e delírios".O ex-dirigente reiterou que não confirmaria a entrevista para não "incriminar pessoas inocentes". Efraim Morais afirmou também que pretende convidar a jornalista que entrevistou Silvio, Soraia Aggege, para depor na CPI na próxima terça-feira.Lula blindadoO depoimento foi marcado por negativas e pela ausência de críticas ao governo e ao presidente Lula -- Silvio Pereira afirmou, em resposta a um senador da oposição, que pretende votar no presidente nas eleições de outubro. Pereira também disse que o presidente Lula, o ex-deputado federal José Genoino, o ex-ministro José Dirceu e o senador Aloizio Mercadante são líderes políticos do partido, e não chefes do esquema, o que ele havia dito ao jornal. No depoimento à CPI, ele voltou a jogar a culpa sobre Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido. "Por mais inverossímil que possa ser, o Delúbio tinha controle absoluto. Se mais alguém tinha, eu não sei", afirmou Pereira.O ex-dirigente, que não assinou termo de compromisso para a CPI, afirmara a "O Globo" que o empresário Marcos Valério coordenava um esquema ilegal de arrecadação de verbas e que pretendia obter R$ 1 bilhão para o caixa do partido. "Nesta entrevista que eu dei eu não sei mais onde está a verdade", afirmou Pereira ao ser questionado sobre o suposto plano de Valério de obter R$ 1 bi. Ainda sobre o empresário mineiro, Pereira afirmou que existem "uns cem Marcos Valérios no país".O ex-dirigente do PT chegou a contestar a transcrição da entrevista ao jornal. "Não lembro ter dito à repórter que queriam me matar", disse Pereira ao responder ao senador Arthur Virgílio (PSDB-AM). Neste momento, Efraim Morais anunciou que vai atuar para dar "garantia de vida" ao ex-secretário-geral do PT. Quem pediu garantia para Pereira foi o líder do PFL, senador José Agripino (RN), após o ex-dirigente ter-se negado a responder a várias perguntas."Patinhas"O ex-secretário do PT afirmou que o presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, era conhecido no partido como "Tio Patinhas". Okamotto pagou uma dívida de R$ 29 mil do presidente Lula com o PT, sem explicar a origem do dinheiro.Pereira não chegou a dizer se se arrepende de ter recebido a reportagem de "O Globo", mas afirmou que "queria ficar fora de qualquer coisa que cheirasse política".EstresseO ex-dirigente do PT negou-se, por orientação de seu advogado, a assinar o termo de compromisso para falar a verdade na comissão. A decisão dele foi tomada após o presidente da CPI adotar a mesma interpretação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio. O STF rejeitou liminar ampliando habeas corpus, para que Pereira tivesse o direito de permanecer em silêncio, concedido em novembro de 2005. Efraim Morais leu o atestado médico trazido pelo advogado de Pereira, assinado pelos médicos Ricardo Nepomuceno e Charles Pillari, comprovando que ele está em estado de estresse e com depressão moderada/grave, além de distimia (humor cronicamente deprimido). O ex-secretário do PT depôs com uma das mãos enfaixada -- ele se cortou em uma crise nervosa.